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| Segunda-feira , 10 de Dezembro de 2007 |
As minhas noites minhas
Não sabia se explicar e nem tinha o porquê. Ninguém ali parecia ou merecia ou deveria ter porquês. Muito menos eu. Ele tinha olhinhos pequenos, tinha cachos, só sabia sorrir e dizer coisas que eu não me preocupava em entender. Tinha uma garrafa de cerveja e tinha beijos. Eu tinha álcool, tinha cheiro, tinha a noite que eu esperei. Tinha o meu lugar, tinha mãos.
Japinha desconcertada, não sabia de cor as músicas da melhor banda da noite e não parava de olhar nem lembro mesmo pra onde. Eu tinha um jeito de professora que eu não tenho, eu tinha uma alegria súbita que eu não tenho, eu tinha vontades que eu não tenho. Mas eu sei que as pessoas se reconhecem, lembram de vidas dessa vida onde elas se conheceram e tudo se torna tão natural. No balcão do bar, na mesa, no banheiro.
E alguém parou pra falar de política e de filosofia. Porque o moço do bar realmente achou que estaríamos interessados em saber os benefícios que o governo dá aos bêbados. Eu respondi já afogada: rapaz, esse Lula é muito bom! E alguém sorriu. E alguém nem percebeu que o show começou e acabou. E alguém nem percebeu que o sol estava vindo, por sobre a calçada, por sobre os cigarros e as músicas, as pernas e as letras. O sol estava vindo. No céu. “Maior do que qualquer coisa de qualquer lugar”.

escrito por mariana às 17h02
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| Quarta-feira , 05 de Dezembro de 2007 |
Viver ultrapassa todo o entendimento (Clarice Lispector)
Ninguém havia lhe cedido um lugar no ônibus. E mesmo carregando o livro cheio de importância, ela não tinha para onde olhar. Atrever-se a observar as mesmas pessoas, os mesmos carros, o vento que sopra quando quer, as árvores e a cor gritante de todas aquelas buzinas faria do dia triste um dia triste tão comum quanto os outros. E quando parecia o final das contas, ela escolheu o livro. As páginas que viriam ainda eram novas, talvez dissessem exatamente o que ela queria. Talvez não. Era preciso arriscar. Uma novidade faria do dia apenas triste.
Um salto pra fora de onde ela não se sentia dentro. E não houve abraços, nem beijos demorados de reencontro. Nem sol havia. O livro já estava fechado, os passos cerrados, os lábios secos, a mente ausente. O lugar nem de longe deveria ser aquele. Nem as caras, nem as conversas, nem as horas. Não havia nada nem ninguém que a esperasse, não havia ligações perdidas no celular, não havia um convite dentro do caderno. Ela, pronome pessoal feminino, teve ânsia de choro e de vômito. Porque além das lágrimas sob a testa algo pesava no estômago. Pesava como um saco de arroz. Um peso desajeitado que ela não queria nem tinha mais forças pra carregar. Um fardo não mais leve que a cabeça cheia de divagações que nem de longe alguém poderia entender.
E ela nunca exigira isso. Entender é forte demais. O que é entendível é tão comum quanto aquele dia. O que é entendível não ousa provocar, nem questionar e é tão óbvio que não interessa. As coisas que ela não podia entender eram as que mais fascinavam: o desenho que encantava pelas cores, a música que ela não sabia por que enchia seu coração com uma alegria súbita, palpitante em quilômetros de veias. O dia que amanhecia quente e terminava com uma chuva de barulhinho bom. Entender é ocupar-se em desprezar o que realmente interessa em busca de alguma lógica. É achar que o mundo é matemática, que as contas são perfeitas, quando toda a graça está no resto da divisão e não no divisor ou dividendo. O mundo é mais. E o coração sempre acha o seu jeito próprio de entender.
E no dia em que o mundo ousou entender, não houve pergunta, não houve resposta. Não houve sequer olhos duvidosos ou completamente certos de qualquer coisa que fosse. O mundo se perdeu e esqueceu que era mundo.
Ela? Anda por aí. Ainda descobrindo o velho vasto mundo. Mas sem a mínima preocupação em entendê-lo.
escrito por mariana às 00h00
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Escritora sim, intelectual não.
“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. [...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora? O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”
Clarice Lispector em "A Descoberta do Mundo"
Porque ela sempre diz tudo. Porque ela já disse tudo. E esse é o mundo que eu descubro todo dia.
escrito por mariana às 02h38
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